Do sonho ao pesadelo – Saiba como funciona o esquema de tráfico de pessoas

Nos últimos 20 anos, tem se tornado cada vez mais comum brasileiros saírem do Brasil em busca de realizarem seus sonhos em outros países, e algumas das principais rotas dessas pessoas tem sido alguns países da Europa e os Estados Unidos.

Algumas saem do país iludidas com promessa de emprego e moradia, mas mal sabem que podem estar caindo numa “cilada”, entrando na verdade em um esquema de “tráfico de pessoas”.

De acordo com a definição do Protocolo de Palermo, o tráfico de pessoas é “o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas” recorrendo à ameaça, uso da força e a outras formas de coação como rapto, fraude, engano, ou abuso de autoridade para fins de exploração.

Em recente matéria publicada pelo portal de notícias G1, um dos esquemas de tráfico de pessoas funcionaria da seguinte forma: é oferecida uma vaga de trabalho (para mulheres é muito comum a oferta de trabalho como babá ou faxineira), onde são enviadas as passagens aéreas, que posteriormente serão descontadas do pagamento da pessoa. Após a chegada no país, o passaporte da pessoa é “apreendido”, como forma de garantia de que ela não terá como sair do país até que pelo menos a “dívida” da passagem seja paga. A pessoa então passa a trabalhar em um regime de até 18 horas de trabalho por dia e geralmente dormindo no local de trabalho, onde a moradia e alimentação também serão descontados do pagamento. Sem conhecer outras pessoas, o imigrante se sente acuado e sem ter a quem recorrer. Entre alguns casos relatados na matéria a de uma brasileira casada com um suíço chamou a atenção: Uma mulher de 36 anos, que acreditava ter encontrado um “príncipe encantado”, virou escrava doméstica e sexual do marido suíço, sendo obrigada a se prostituir para se alimentar. No início, eles viveram um período de lua de mel, mas depois de casar formalmente no começo de 2017, passou a conhecer o lado agressivo do marido. Ela foi forçada a dormir trancada no porão, e onde um balde servia de banheiro. O marido escondeu o passaporte e exigiu que ela pagasse pela comida que consumia, além de lavar, passar, limpar e cozinhar para os quatro homens adultos que moravam na casa. “Eu tinha conhecido ele pelo WhatsApp através de uma amiga e acreditei na promessa”, relatou ao Projeto Resgate. “Deixei minhas duas filhas no Rio para me casar com ele, mas nunca imaginei que ele seria assim”. A reportagem conta que depois de ser resgatada, a brasileira retornou à comunidade carioca onde vivia e tem recebido apoio espiritual para superar tudo o que viveu nessa amarga experiência.

Em relatório bienal, a agência da Organização das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC), estima que, dentre as pessoas vítimas de tráfico de pessoas na Europa, 66% são para exploração sexual, 27% são para serviços forçados e 7% para outros tipos de violência. O levantamento mais recente, de 2018, cobriu cerca de 50% da população mundial e avaliou que havia 25 mil casos reportados nesse contexto.

Antes de serem vítimas de maus-tratos e violência sexual, esses brasileiros acreditam em falsas promessas de trabalho e até mesmo em envolvimentos sentimentais, mas depois descobrem que na verdade foram vítimas de chantagem, submissão e diversos outros tipos de abusos. Muitas pessoas não conseguem sair desse ciclo de abuso, porque não querem aceitar que o sonho na verdade se tornou um pesadelo.